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Marcelo Alonso/ PVT

Entrevistas

Jornalistas detalham bastidores do evento que marcou o ‘boom’ do MMA no Brasil

O dia 27 de agosto de 2011 foi especial para os fãs brasileiros de MMA e também para a imprensa especializada que cobre a modalidade. O motivo foi o retorno em grande estilo do UFC ao Brasil. O último evento da organização no país, realizado em 1998, foi marcante, porém a edição de número 134, que aconteceu no Rio de Janeiro, também se tornou inesquecível para a comunidade que acompanha o esporte e crucial para sua consolidação.

Como se trata de um show único, a reportagem da Ag. Fight reuniu jornalistas especialistas na cobertura das artes marciais como Marcelo Alonso, Mário Filho e o narrador Éder Reis, que não só viveram a experiência do UFC Rio 1, como também trabalharam nele. De acordo com Mário, o trio de lendas composto por Anderson Silva, Maurício ‘Shogun’ e Rodrigo ‘Minotauro’ foi o grande atrativo do evento, já que até superou a expectativa que existia em torno dele. O sucesso dos atletas no octógono e a repercussão positiva da atração na mídia colocaram o Brasil, definitivamente, no cronograma da organização.

“O UFC Rio 1 é memorável e marcante por inúmeras razões. Mais ainda pelo retorno do UFC ao Brasil depois de anos. A grandiosidade do UFC Rio 1, até hoje, acho que não foi superada. Resolveram voltar com um card com medalhões nas lutas de maior importância. Faz tempo que não vejo isso em eventos, em qualquer país. Imagina para nós, brasileiros, ter Anderson, ‘Shogun’ e ‘Minotauro’, os três no auge. O Anderson, na minha opinião, é o maior de todos os tempos, era campeão dos médios, o ‘Shogun’, foi campeão dos meio-pesados, e o ‘Minotauro’, foi campeão interino dos pesados, fora o resto do elenco. Na época, de dez nomes citados, a maioria seria formada por esses brasileiros. As pessoas estavam surtadas”, decretou Mário.

Já Alonso lembrou de dois acontecimentos marcantes no UFC Rio 1. O editor do ‘Portal do Vale-Tudo’ revelou que a imprensa internacional ficou surpresa com o fato do público marcar presença no evento desde o seu início e com a energia da torcida, coisa que não costuma acontecer ao redor do mundo. Fora do Brasil, parte dos fãs que não possui tanto apreço pelo card preliminar, chega, até mesmo, na metade do show.

Tal participação dos fãs brasileiros assusta até mesmo alguns rivais dos atletas locais. Um exemplo disso foi a entrada de Paulo Thiago, ao som da música ‘Tropa de Elite’, da banda ‘Tihuana’. Na ocasião, o policial do BOPE fez a alegria do público presente ao evento, que cantou junto e tornou a recepção do lutador uma das mais impactantes vistas na história do esporte.

“A atmosfera é diferente de tudo. Os colegas da imprensa estrangeira mesmo falaram que nunca ouviram tanto barulho. Lá fora, o público chega bem mais tarde, mas aqui a arena estava lotada, com o público gritando antes do evento começar. Quando o Paulo Thiago entrou com ‘Tropa de Elite’, a arena cantou junto. Eu olhava para os jornalistas gringos, para o Bruce Buffer e o pessoal ficou impressionado. Alguns se perguntaram como o UFC não chegou aqui antes, porque é muita paixão que o público tem pelo esporte. Isso marcou muito”, relatou Alonso.

Marcelo Alonso/ PVT

Além de cobrir o evento para o canal SporTV, Mário também atuou como mestre de cerimônia do UFC Rio 1, como apresentador do treino aberto dos lutadores na praia da Barra da Tijuca. O acontecimento foi um tanto quanto incomum, mas a organização costuma realizar atividades diferentes na semana da luta para que os fãs tenham mais acesso. O jornalista aproveitou para contar uma passagem marcante de sua participação no show.

Mesmo com o calor que fazia na ocasião, Mário enalteceu o comportamento dos fãs e dos lutadores, que entraram em uma espécie de sintonia. Segundo ele, a presença dos amantes do esporte, que reverenciou as estrelas treinando em condições desfavoráveis, e a postura dos profissionais, que retribuíram o carinho do público que também sofria na areia, não saiu de sua cabeça, pois representou o respeito que as artes marciais tanto pregam.

“Dois dias antes, eu estava ativo nas cerimonias e apresentei o treino aberto na praia. O UFC soube promover muito bem o evento, fizeram várias atividades. Hoje, o entretenimento é padrão. Eles arriscaram, o calor era absurdo, mas a estrutura foi sensacional, um palco gigantesco. Alguns lutadores foram lá e prestigiaram a audiência. Aquilo foi muito inesquecível. Foi muito satisfatório conduzir isso. Me diverti”, relembrou Mário.

Narrador do UFC Rio 1 pela RedeTV, Éder Reis não esconde o orgulho de ter trabalhado em um evento tão grandioso e importante para a história do MMA no Brasil. Principalmente, porque o profissional acompanha o UFC também como fã, mais precisamente, desde sua primeira edição. Grato pela oportunidade de atuar em uma atração deste calibre, Éder guarda a memória que tem do show com tanto carinho, que revelou que sua relação com a companhia é de idolatria.

“Foi uma honra transmitir, só que a ficha demora a cair. Esse evento mudou a minha vida. Me deu visibilidade e alavancou minha carreira. Tive a sorte de narrar muitos eventos de luta, como MMA, boxe, kickboxing, mas nenhum evento foi tão importante e nenhum será tão importante quanto o UFC Rio 1. Foi o evento mais importante da minha vida. Narrei ‘Canelo’ contra ‘GGG’, fiz grandes lutas mesmo, narrei o Pacquiao, um monstro de quem sou fã, mas, em termos de evento, nada se compara ao UFC Rio 1. É um evento muito importante na minha vida. Na hora que toca a música ‘Baba O’Riley, do ‘The Who’, aquilo diz muito. Eu falo que aquela é a música da minha vida. Quando vai começar o card principal e toca a música, aquele sim é o grande momento da minha vida”, enalteceu Éder.

O UFC Rio 1 foi um divisor de águas no Brasil, porque seu sucesso consolidou de vez o MMA no país. Sendo assim, naturalmente, a exposição atraiu mais fãs, jornalistas e até mesmo críticos que opinam sobre o esporte. Dessa forma, os veteranos Alonso e Mário analisaram as principais diferenças na cobertura jornalística da modalidade antes e depois do evento.

De acordo com Mário, a barreira da aceitação, finalmente, foi quebrada. Naquele período, o MMA era marginalizado, mas, hoje, se tornou um esporte que cresce rapidamente e que ganha cada vez mais espaço, seja nos noticiários ou até mesmo na indústria do entretenimento, como nos filmes e novelas. Contudo, o jornalista também sinalizou que a popularização da modalidade deu voz a personagens que não possuem a responsabilidade necessária para analisar o que, de fato, acontece nas artes marciais mistas e com a carreira de um lutador.

“Na televisão, a cobertura pertencia ao Combate e ao SporTV. Naquela época, não era fácil, mas sabíamos da importância de ter um espaço. O que eu vejo de diferença é que os recursos, a audiência, o espaço, o interesse eram menores do que nos dias de hoje. Hoje, está mais fácil você ter espaço. A televisão compreendeu que é um produto comerciável. A Globo reconheceu o valor do MMA. Na internet, o que mais existe são canais independentes no YouTube para melhor e para pior. Muitos cobrem o MMA, o grande problema é que nem todos têm a preocupação jornalística, a imparcialidade. Na verdade a maioria é feita de forma opinativa. O que vejo é que a popularidade cresceu e a aceitação é muito maior”, explicou Mário.

Por outro lado, Alonso fez questão de enaltecer a coragem da RedeTV, que foi a primeira emissora que, de fato, apostou no MMA, mesmo com o esporte sendo marginalizado na época. É bem verdade que a Rede Globo e o canal Combate amplificaram o alcance e popularizaram o UFC para o grande público, mas o jornalista não esqueceu a iniciativa da emissora paulista e cravou que, sem ela, dificilmente, as grandes marcas teriam dado às artes marciais mistas o espaço e a atenção que elas merecem.

“Já havia o interesse pelo esporte, só esperávamos que a mídia fizesse o trabalho dela, que deveria ter feito há muito tempo e não fazia por preconceito. A partir daí a coisa catapultou. Primeiro, foi a RedeTV que deu espaço e o sucesso lá fez a Globo abrir os olhos para o produto que eles tinham na mão, tendo o canal Combate, mas não davam o valor. A RedeTV teve uma participação fundamental na história do esporte, de ter acreditado em um momento que todos faziam pouco caso. Eles acreditaram e mostraram para a Globo que eles estavam fazendo uma besteira de deixar o produto passar. A partir daí, tivemos a virada do esporte graças ao interesse da Globo e o fechamento de um grande negócio com o UFC”, concluiu Alonso.

Após a realização do UFC Rio 1, a maior organização de MMA do mundo voltou ao Brasil 35 vezes. Em suas visitas ao país, o Rio de Janeiro foi o principal palco, com dez eventos sediados contra oito realizados em São Paulo. Nas atrações, ícones do esporte como Anderson Silva, Charles ‘Do Bronx’, Cris ‘Cyborg’, Demian Maia, Fabrício Werdum, Glover Teixeira, Jéssica Andrade, José Aldo, Lyoto Machida, Maurício ‘Shogun’, Rodrigo ‘Minotauro’, Rogério ‘Minotouro’, Ronaldo ‘Jacaré’, Thiago ‘Marreta’, Vitor Belfort, Wanderlei Silva, entre outros lideraram o card e brindaram os fãs com suas presenças.

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