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Poatan nos pesados: a oportunidade histórica, os riscos do salto e os sparrings que disseram “não”
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Redacao
A poucas semanas do duelo mais aguardado de sua carreira, Alex “Poatan” Pereira segue afinando os últimos detalhes do projeto mais ambicioso já desenhado dentro do octógono mais famoso do mundo. No próximo dia 14 de junho, em Washington, D.C., o paulista entra em ação no UFC Freedom 250 – o histórico card da Casa Branca – para enfrentar o francês Ciryl Gane pelo cinturão interino dos pesos-pesados (até 120,2 kg). Se vencer, será o primeiro lutador a conquistar títulos em três categorias diferentes na história do Ultimate. Esse tipo de cenário também movimenta análises esportivas fora do octógono, especialmente entre leitores que acompanham odds, mercado e operadoras de apostas com licença válida emitida pela SPA. Mas, nos bastidores, o caminho até a façanha vem se mostrando mais complicado do que o próprio brasileiro deixa transparecer. Recusas de sparrings, comparações inevitáveis com lendas e dúvidas sobre o tempo de adaptação aquecem o debate à medida que a luta se aproxima.
O “não” de Valter Walker e o quebra-cabeça do camp
A mais recente curiosidade dos bastidores envolve Valter “Caçador de Pés” Walker. Em entrevista ao canal “Connect Cast”, o peso-pesado carioca revelou que recebeu um convite oficial da equipe de Poatan para integrar o camp em Nova York, sob o comando de Glover Teixeira, Plinio Cruz e companhia. Apesar de admitir que o intercâmbio agregaria à sua trocação, Walker preferiu manter a rotina na Rússia, onde vive uma fase espetacular – quatro vitórias seguidas, todas via chave de calcanhar.
“Iria ficar longe de casa. Gosto de treinar em casa. Estou em uma fase boa aqui, feliz para caramba, treinando bem. Não quero sair desse plano. Aqui sou o foco, o centro das atenções. Lá eu não iria ser, o tricampeão é o Poatan”, justificou o brasileiro.
A recusa, somada à confirmada presença de Tallison “Xicão” Teixeira no campo do paulista, expõe um dos maiores desafios práticos da empreitada: encontrar parceiros de treino realmente representativos para a divisão até 120 kg. O próprio Walker, em entrevista anterior, foi enfático ao alertar que a transição exigiria, na visão dele, ao menos um ano de adaptação muscular, mudança de rotina e novos sparrings – não dois meses. A linha do tempo de Poatan, evidentemente, é bem mais agressiva.
O salto físico: de 92 kg a 112 kg sem perder o estilo
Foi exatamente sobre esse ponto que o ex-campeão meio-pesado quis dar uma resposta visual. Em vídeo publicado em suas redes sociais no final de março, “Poatan” apareceu marcando 112 kg na balança – um salto considerável em relação aos 92 kg em que sempre competiu desde a estreia no UFC. A imagem do brasileiro mais encorpado, mas sem sinais de inchaço excessivo, rapidamente viralizou e amenizou parte das críticas que pairavam sobre o projeto.
“Me sinto exatamente o mesmo. Eu apenas aumentei, mas não perdi nada”, garantiu o lutador, indicando que conseguiu construir massa muscular sem comprometer velocidade nem timing – elementos centrais de seu estilo de kickboxing.
A confiança é compreensível. Antes mesmo de chegar ao MMA, Poatan já havia sido bicampeão simultâneo do Glory, maior evento de kickboxing do planeta, justamente nas categorias meio-pesado e pesado. Em outras palavras: lutar contra adversários grandes não é exatamente uma novidade para ele – embora o contexto do MMA, com quedas, clinch prolongado e luta de chão, mude radicalmente a equação.
Os votos de confiança de Cigano e Poirier
Mesmo entre os céticos, há quem aposte firme no brasileiro. Junior “Cigano” dos Santos, ex-campeão linear dos pesados e que enfrentou Ciryl Gane na própria reta final de sua carreira, declarou em entrevista ao jornalista Ariel Helwani que o estilo do francês favorece justamente o brasileiro.
“Acho que ele vai se sair muito bem. Na verdade, acho que vai se sair muito, muito bem, especialmente nessa estreia contra o Gane”, opinou Cigano.
Dustin Poirier seguiu na mesma linha, mas com foco no poder de fogo: “E eu sei que o poder vai se transferir”, declarou o ex-desafiante ao título dos leves, em referência ao impacto que os golpes de Poatan podem causar mesmo entre gigantes da divisão.
A análise dos veteranos ecoa o que muitos especialistas vêm dizendo: a marca registrada do paulista – o gancho de esquerda que demoliu Israel Adesanya, Jamahal Hill, Jiri Procházka e Khalil Rountree Jr. – tende a ser ainda mais devastadora quando combinada à massa corporal extra. O risco, naturalmente, é encontrar adversários que também batem como caminhão.
A sombra histórica: Cormier, Jones e o terceiro cinturão
Para entender o tamanho do desafio, vale lembrar dois espelhos óbvios: Daniel Cormier e Jon Jones. Ambos meio-pesados dominantes, ambos campeões dos pesos-pesados em algum momento – mas nenhum dos dois conquistou um terceiro cinturão em divisão diferente.
Cormier alcançou os dois títulos de forma quase simultânea, mas nunca havia competido no peso-médio. Jones, por sua vez, esperou anos, ganhou cerca de 30 quilos de massa muscular e só assumiu o título dos pesados em 2022 – justamente contra Ciryl Gane, exatamente o adversário que aguarda Poatan na Casa Branca.
O paralelo é instigante: se Jon Jones, considerado por muitos o maior MMA fighter da história, levou tanto tempo para se sentir pronto para a categoria, qual é o real grau de prontidão de Poatan, que faz a transição em uma janela muito mais curta?
A história do UFC também tem casos menos felizes. Conor McGregor, ainda que vencedor em três divisões em lutas avulsas, jamais conquistou um terceiro cinturão. Outros nomes que tentaram subir de categoria, como Anthony “Rumble” Johnson e Vitor Belfort, colheram resultados desiguais. O que coloca a aventura de Poatan em um patamar de raridade ainda maior – e justifica tanto o entusiasmo quanto o ceticismo.
Os próximos rivais possíveis
Caso supere Gane, o brasileiro terá um cardápio explosivo pela frente. Tom Aspinall, atual campeão linear, é o nome mais óbvio – e o duelo geraria uma das maiores bilheterias da história recente do UFC, se a recuperação do britânico após a cirurgia ocular permitir. Há ainda Jon Jones, cujo retorno permanece envolto em mistério, mas que já flertou publicamente com uma superluta contra o paulista.
Sem falar em nomes como Sergei Pavlovich, Curtis Blaydes, Alexander Volkov e o próprio Valter Walker, que admitiu lutaria “de graça” contra Poatan apenas pela exposição midiática.
O preço de fazer história
Aos 38 anos, com contrato renovado e o cinturão dos meio-pesados nas mãos de Magomed Ankalaev, Poatan tem pouquíssimo a perder em termos de legado. Ganha tudo se conquistar o cinturão; pouco perde se cair diante de gigantes que historicamente devoram quem ousa subir.
A sequência de sparrings rejeitados, as comparações com Jones e Cormier e os debates sobre o tempo de adaptação não diminuem o tamanho do projeto – apenas mostram o quanto ele é ambicioso. Em 14 de junho, na Casa Branca, o Brasil pode testemunhar o nascimento do primeiro tricampeão da história do Ultimate. Para quem acompanha o impacto esportivo e comercial de um evento desse tamanho, até uma bet lançada em 2026 com licença para operar no Brasil pode enxergar nesse card um termômetro importante do interesse nacional pelo MMA. Ou o início de uma página menos gloriosa para o ídolo paulista. De qualquer forma, será impossível desviar os olhos.