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Charles Do Bronx e seu oftalmologista, o Dr Cavalcanti Jr
Oftalmologista, o Dr Cavalcanti Jr operou o ex-campeão do UFC Charles Do Bronx - Acervo Pessoal

Entrevistas

Oftalmologista de Charles Do Bronx propõe mudança em protocolo médico do UFC

Durante muito tempo, os danos relacionados à visão dos lutadores – mais raros do que as lesões ortopédicas – foram um tema pouco debatido dentro da comunidade das lutas. Mas, recentemente, a questão ganhou força, especialmente depois de atingir um dos principais astros do UFC na atualidade, o campeão peso-pesado Tom Aspinall. Agora, com o tópico em alta, este parece ser o momento ideal para se discutir a implementação de mudanças significativas nos processos que envolvem os cuidados com os atletas afetados por traumas oftalmológicos – pelo menos é o que propõe o médico brasileiro Cavalcanti Jr, especialista no assunto.

Responsável por cuidar da visão de vários atletas de elite do MMA nacional, entre eles o ex-campeão peso-leve (70 kg) do UFC Charles Do Bronx e a top 3 do peso-galo (61 kg) Norma Dumont, o Dr Cavalcanti Jr conversou de forma exclusiva com a equipe de reportagem da Ag Fight e apontou a necessidade de se adotar um novo sistema capaz de verificar com maior precisão as reais condições dos lutadores afetados por possíveis lesões oftalmológicas durante os combates. Para o médico brasileiro, urge a necessidade das equipes de emergência dos eventos contarem com a presença de profissionais especializados nesta área.

“Como amante do esporte e oftalmologista, eu vejo que o UFC e outros eventos tinham que evoluir nessa parte de assistência ocular. A maioria dos problemas que acontecem no cage são de ordem ortopédica – fraturas, luxações, cortes de pele… A oftalmologia é diferente. Você pode ter vários problemas, desde uma laceração da pálpebra até um descolamento de retina e cegueira total, que foi o que aconteceu com o Michael Bisping, por exemplo. Muitos atletas tem edema, inchaço palpebral. Quando há o inchaço palpebral, a avaliação do globo ocular fica muito prejudicada”, ponderou o oftalmologista.

Novo protocolo

Assim, por acompanhar de perto o esporte, como fã e médico de atletas, o Dr Cavalcanti Jr desenvolveu um novo protocolo que, segundo ele, evitaria decisões equivocadas que pudessem comprometer a saúde dos lutadores e o espetáculo. Mais do que apenas a presença de um oftalmologista a postos para atuar nos eventos, o médico responsável por cuidar da visão de Charles Do Bronx e outros astros do UFC garante ter um sistema de avaliação propício para sanar o crescente problema, normalmente causado pelas dedadas nos olhos – um golpe ilegal, mas, muitas vezes, involuntário durante as lutas.

“O árbitro quando chama um médico, normalmente o médico é um clínico ou ortopedista, que tem cinco minutos com o atleta para decidir se ele volta ou não. Então, eu tenho um protocolo que a gente poderia, através de exames portáteis, entrar no octógono e fazer os testes – não aquele teste simplório de tampar o olho que não está comprometido pela dedada ou qualquer outra coisa e faz o teste com o olho que supostamente está comprometido. Então, mediante esse protocolo que eu já tenho em mente, escrito, já está guardado, eu queria mudar a abordagem oftalmológica do MMA mundial. A gente entraria lá, utilizaria os métodos que eu tenho em mente e em dois ou três minutos eu chamaria o técnico, o atleta, o árbitro e diria: ‘Por mim, tem condição, não há nenhuma lesão grave (ou não tem condição)’. E aí eu facultaria a esse grupo de atuantes para a definição. E não simplesmente, de uma forma muito rude, decidir o término de uma luta ou não”, explicou.

Caso Tom Aspinall

O debate sobre a necessidade de mudanças nos cuidados com a visão dos lutadores de MMA cresceu exponencialmente desde o problema do campeão Tom Aspinall. Em sua primeira defesa do cinturão linear peso-pesado do UFC, em outubro do ano passado, o inglês sofreu com as dedadas nos olhos aplicadas pelo desafiante Ciryl Gane e, além de ter a luta ser encerrada prematuramente sem resultado (‘no contest), passou a ver seu futuro no esporte sob risco.

Apesar de não ter sofrido nenhum dano significativo nas estruturas mais nobres dos olhos, como córnea, nervo, cristalino e retina, como os laudos divulgados pelo próprio lutador inglês indicam, Aspinall tem travado uma dura batalha para recuperar totalmente sua visão. Isso porque o trauma causou uma inflamação no tendão do músculo oblíquo superior, um dos responsáveis pela movimentação sincronizada dos olhos. Com o movimento dos olhos comprometido, o campeão tem sofrido com visão dupla, dificuldades para enxergar perifericamente e, com o passar do tempo, pode ver com menos nitidez.

“Houve uma inflamação no tendão de um músculo chamado oblíquo superior. Esse músculo se dispõe de uma certa maneira que o tendão fica em uma espécie de roldana, fazendo com que os movimentos do olhar – conjuntamente com os outros músculos – mantenham-se paralelos. Quando ele não movimenta por igual, não há esse paralelismo, o paciente vê duplicado o tempo todo. A questão do Tom Aspinall é a visão dupla. Nos exames internos do olho, ele não teve lesão no nervo ou da retina. O nervo e a retina, principalmente a retina, é responsável pela nitidez da visão central. Porém, quando você passa a ter um olho onde a visão está duplicada por uma restrição muscular, o cérebro começa a se defender e começa a não usar muito a visão central desse olho. Então, vai se perdendo a qualidade de visão central. Por isso a visão dele começou também a cair, apesar de ter sido um problema muscular. O problema muscular também restringe a percepção periférica dele”, explicou o médico.

Diante do drama vivido pelo lutador do Reino Unido, os membros da comunidade do MMA se questionam se o campeão do UFC poderá voltar aos octógonos – e quando. Para o Dr Cavalcanti Jr, esta pergunta ainda não tem resposta, e só deve poder ser respondida dentro do período de seis meses a um ano, período no qual o profissional acredita que servirá para que os oftalmologistas responsáveis por cuidar da visão de Aspinall tentem curá-lo com os tratamentos adequados, incluindo cirurgias, como o próprio gigante inglês já indicou.

“Eles estão em um grande dilema: o que fazer? Essas medidas paliativas são para oferecer maior conforto para o paciente. Porém, eles estão especulando fazer injeção de corticoide para tentar desinflamar esse tendão para que o movimento volte a ser normalizado e, assim, não ter a visão dupla. Desde a luta, o ganho clínico dele foi muito pouco – tanto na capacidade visual, quanto na restrição muscular. Inclusive, eles estão aventando a hipótese de fazer uma cirurgia. Cirurgia, quando mexe com músculo, a sintonia é muito fina, porque pode até hiper corrigir. Quando hiper corrige, pode ser que ele continue vendo duplicado olhando para uma outra região. Realmente, é um caso raro pela situação envolvida. Penso eu que nos próximos seis a 12 meses vai se ter uma definição se ele vai se recuperar a ponto de voltar a lutar. Não deve estar sendo fácil a vida dele. Ainda é uma interrogação sua volta aos octógonos”, concluiu o Dr Cavalcanti Jr.

Assim como o caso de Tom Aspinall, outros lutadores também já sofreram com lesões oftalmológicas – boa parte delas causadas pelas dedadas nos olhos durante as lutas. Muitos, inclusive, já sugeriram uma mudança nas luvas utilizadas pelos eventos – uma alteração que o Dr Cavalcanti Jr julga ser desnecessária. Seja uma alteração nos equipamentos ou no protocolo de atendimento, um coisa parece ser consenso entre todos os envolvidos: algo precisa ser feito para diminuir os riscos para a saúde oftalmológica dos atletas.

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Nascido em Niterói (RJ), Neri Fung é jornalista e apaixonado por esportes desde a infância. Começou a acompanhar o MMA e o mundo das lutas no final dos anos 90 e começo dos anos 2000, especialmente com a ascensão do evento japonês PRIDE.

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